Viagem Internacional de carro, dias 13 e 14: Mendoza (Argentina) – São Borja (Brasil)

Nove de fevereiro de 2015 foi o mais emocionante e difícil dia da viagem, depois de receber a multa de 3.950 pesos argentinos na quinta-feira anterior, tentei conseguir o dinheiro para a quitação da multa nos dias seguintes sacando dinheiro e o guardando para somar o montante e pagá-la na segunda-feira. Na sexta-feira saquei parte do dinheiro com sucesso, mas sábado e domingo não foi possível em razão do câmbio. O débito em conta corrente depende da conversão para o dinheiro da moeda argentina para a brasileira.

Ainda sem saber o motivo ao ter um saque recusado na manhã de sábado, entrei em contato com o banco por telefone e fui informado da razão de o saque ter sido negado, recebi da atendente a sugestão que poderia ir até uma agência no centro de Mendoza para efetuar um saque de emergência, este com limite superior ao caixa eletrônico, mas apenas na segunda-feira. Como havia feito o desafio pessoal de não me irritar por nada, deixei a preocupação de lado e passei mais um final de semana em Mendoza.

Retornando à manhã de segunda, deixei o hotel e fui até uma agência do banco no centro da cidade para efetuar o tal saque de emergência. Chegando lá tentei explicar para a menina que me atendeu a necessidade a urgência da situação. Não houve entendimento, talvez por um pouco de má vontade da funcionária e um pouco pelo meu espanhol ruim, uns dois minutos de conversa e ela impaciente disse que buscaria informações com um outro funcionário.

Enquanto ela me deixou no salão lembrei que nenhum familiar havia sido informado do problema, não queria deixá-los excessivamente preocupados. Cheguei a pensar em conversar com meu irmão e fazê-lo levar dinheiro para mim de avião, mas seria uma logística complicada, cara e também demorada. Lembrei então de avisar uma amiga, a única pessoa que sabia a respeito do que havia ocorrido dias antes de que, no caso de eu deixar de fazer contato, que avisasse em casa.

Impaciente que já estava, abri a carteira e lá estava minha CNH vencida em 2010, não pensei duas vezes: Dei as costas e resolvi seguir viagem com a carteira vencida. Fiz um último saque dentro dos limites diários, retornei ao Omega e seguimos viagem. Uma rápida parada ainda dentro da região de Mendoza para um abastecimento e tão logo retornei à estrada pensei em voz alta: Só paro de dirigir quando já estiver no Brasil.

E assim foi o dia: Dirigindo em altas velocidades e fazendo paradas apenas se extremamente necessário, a missão de deixar o território argentino foi perseguida obsessivamente. Em retrospectiva é possível concluir que essa necessidade contribuiu para não sentir em momento algum a sensação demora como foi na viagem de ida. As horas cortando as infinitas retas e planícies argentinas agora não eram percebidas, a questão principal era diminuir minha distância até a fronteira, concluir o objetivo de chegar ao Brasil.

Entre o abastecimento em Mendoza até a próxima parada foram pouco mais de cinco horas de volante quando já estava em Córdoba, passando o trecho que considerei o mais belo no interior argentino entre a fronteira com o Brasil até Mendoza. Já havia percorrido aproximadamente 650 km quando parei pela primeira vez para reabastecimento, lanche e banheiro e retomar a estrada, tudo bem rápido. Nessa primeira etapa, havia passado por um trecho com chuva fraca e neblina, a tensão já havia me cansado bastante, mas não poderia ficar parado.

De Córdoba até Santa Fé, mais 400 quilômetros na Autopista 19. Passei a me preocupar com a polícia argentina, já estava me sentindo com sorte por não ter sido parado na fronteira de saída da Província de Mendoza, ao contrário da viagem de ida, deveria evitar ser parado por excesso de velocidade, mas ao mesmo tempo tinha urgência de chegar logo à fronteira – que dúvida cruel. Cheguei em Paraná já à noite, onde fiz mais uma parada para abastecimento, lanchar e ir ao banheiro, passei a ter certeza que partir dali o cansaço seria o maior rival.

Uma olhada no Google Mapas para constatar que Uruguaiana, cidade do Rio Grande do Sul que faz fronteira com a Argentina estava 440 km distante de onde eu estava, portanto, mais da metade do caminho total entre Mendoza e esta cidade gaúcha, 1380 km, havia sido percorrido. Estava cansado, mas ciente que percorrer 980 km em 11 horas havia sido uma tarefa incrível, e, portanto, concluir os 440 restantes seria possível, bastava querer.

Deixei Paraná a caminho da Ruta Nacional 127, sentido nordeste, estar subindo o mapa a caminho do Brasil trazia conforto, o problema com a carteira de motorista trazia apreensão. Enfrentei chuva torrencial por uns quarenta minutos na RN 127, com isso foi necessário reduzir a velocidade. A tensão de dirigir sob chuva durante a noite e depois de tantas horas de volante, me deixava mais exausto a cada minuto. Passei a me preocupar com minhas condições físicas de continuar dirigindo – mas sempre que considerava parar para descansar me lembrava que era necessário deixar a Argentina o quanto antes, o combustível que me fazia seguir viagem.

Depois de aproximadamente mais 190 quilômetros, agora sem chuva, mas com um frio congelante fora do carro, metros depois do entroncamento da RN 127 com a RN 6 na Província de Entre Rios, um frio na barriga ao ver uma barreira policial. Esta havia sido a barreira na qual fui parado na viagem de ida, era certo que seria novamente parado, e assim aconteceu.

rn127.png
Barreira Policial onde fui parado na ida e na volta. Foto: Google Mapas

Solícito e bem agasalhado, o policial ordenou a parada e pediu os documentos do Omega e meus documentos pessoais, entreguei todos, inclusive a CNH vencida, como se não soubesse da situação do documento.

O policial pegou os documentos e foi até a traseira do veículo, exatamente como foi feito na viagem de ida, acho que para conferir a placa de identificação, retornou e disse que a documentação do carro estava OK, mas minha CNH vencida impediria a continuidade da viagem – tentei rapidamente explicar, mas ele então ordenou que estacionasse meu carro no acostamento e explicou que eu teria que conversar com seu chefe.

Aguardei alguns minutos fora do carro, já parado no acostomento, e um segundo policial me chama da porta do escritório da barreira. Solicitou que me sentasse à mesa e foi logo dizendo que minha CNH estava vencida e que por este motivo, deveria pagar uma multa para seguir viagem. Assim como foi quando da retenção da carteira em Mendoza, não discuti a situação e aceitei as instruções do policial. Mas depois que disse não ter dinheiro em espécie, e que, para quitar a mesma deveria sacar em um caixa automático, ele se prontificou a me levar em seu carro particular até um caixa automático em uma cidadezinha próxima: Sauce de Luna.

Fomos até lá e nenhuma palavra trocamos, já era muito tarde e ao chegar ao banco para realizar um saque o mesmo foi negado. Foi quando lembrei de ter realizado um saque mais cedo, ao sair de Mendoza. Assim, o limite diário não permitiria mais uma retirada até o dia amanhecer. Chamei o policial até o caixa rápido e expliquei o que estava acontecendo, deixei claro que poderia retornar ao local na manhã seguinte para sacar o dinheiro e quitar a multa, que era um quinto do valor da multa recebida em Mendoza, fato que não mencionei em momento algum.

Ao entrar novamente no carro do policial, um Renault Clio, pensei em fazer amizade, e então comecei a falar de Belo Horizonte, cidade que ele respondeu não conhecer. Mas quando citei o estádio Mineirão, ao explicar que foi o local onde o Brasil perdeu de 7×1 para a Alemanha, tive que fazer uma pausa para as gargalhadas do argentino, gargalhadas que nunca vou esquecer, lembrou-se em seguida também de Cruzeiro e Atlético Mineiro – Ronaldinho Gaúcho! Disse.

Chegamos de volta ao escritório na barreira e então solicitou que aguardasse do lado de fora pois ele conversaria com seu chefe. Não entendi bem essa coisa de “falar com o chefe” dos policiais argentinos, parece o mesmo que “um tempo para pensar”. Alguns breves minutos e ele me chamou de volta ao escritório. À essa altura, todo o estado de sono com o qual me preocupava já havia deixado de existir, a adrenalina era gigantesca e estava muito, mas muito acordado!

Logo que sentei o policial disse, dentro do que meu recém-formado vocabulário de portunhol permitiu traduzir:

– Não deveria, mas vou liberar você!

Não acreditei! Mas logo fez questão de ressaltar e aconselhar:

– Distante alguns quilômetros daqui há uma cidade chamada Federal, pare nessa cidade e aguarde o “Banco de La Nacion Argentina” abrir, faça um saque e guarde o dinheiro, pois se acontecer de você ser novamente parado, não irão te liberar sem a quitação da multa.

Respondi efusivamente: Tiene un bueno coración, Gracias!

Fui até o policial na barreira e também o agradeci. Não tenho certeza que compreenderam, mas foi legítimo. Também, provavelmente, não compreenderam direito o que um sujeito brasileiro, sozinho, guiando um carro diferente, estava fazendo por ali naquela madrugada. Também acho que policiais tem faro para coisa ruim.

Mesmo tendo confirmado ao policial que faria a parada em Federal, tão logo entrei de volta ao Omega e percorremos os primeiros metros, exclamei com meu companheiro de viagem: Se não ficamos presos aqui, agora vamos direto até o Brasil! E seguimos viagem em ritmo acelerado, apesar de uma centena de quilômetros depois chegando em uma cidadezinha chamada San Jaime de La Frontera, distante uns 140 km da barreira, fui finalmente vencido pelo cansaço: Parei em um posto de gasolina e avisei ao frentista que faria uma parada para dormir.

Descansei por pouco mais de duas horas dormindo no banco traseiro do Omega como fiz uma vez na viagem de ida, ao acordar fiz um rápido lanche, aproveitei para encher o tanque pela última vez com a gasolina pura dos argentinos e segui viagem para Uruguaiana. Cheguei na fronteira de manhã bem cedo, ainda com sono, com muito receio que alguma coisa não desejada acontecesse no processo de deixar o país.

Estacionei o Omega e fui até a imigração apresentar meus papéis de entrada na Argentina para passar pela fronteira a caminho do Brasil. Não havia fila e fui rapidamente atendido, o argentino que me atendeu pegou a documentação, olhou para meu rosto e de volta à tela do computador. Nesse minúsculo espaço de tempo imaginei que alguma informação como “foragido da polícia Mendocina” havia sido mostrada no monitor, foram breves e intermináveis segundos – o barulho do carimbo com a liberação me despertou do pesadelo e trouxe um alívio gigantesco.

Peguei a guia de liberação, retornei ao Omega, estava terminando a saga e agrecedi por isso. Com o Omega também cheguei a comentar: Estamos quase lá, amigão! Já de carro até a cancela, última parada em território argentino, entreguei o papel carimbado a um soldado do exército – grácias. Alguns metros sobre a ponte que faz a ligação entre os dois países e uma placa dando as boas-vindas ao Brasil selou o término da odisseia.

Claro que havia a possibilidade de problemas com a polícia brasileira, afinal estava com uma CNH vencida há quatro, quase cinco, anos. Mas estava em meu próprio país e tinha a certeza que seria mais fácil resolver qualquer imprevisto. Não parei em Uruguaiana e de lá fui direto para São Borja, cumprindo mais 181 km pela BR-472. Sensação de alívio ao chegar em São Borja, merecia descansar e tomar um banho demorado para relaxar.

 

3 comentários em “Viagem Internacional de carro, dias 13 e 14: Mendoza (Argentina) – São Borja (Brasil)

  1. Imagino sua alegria e alívio após passar a fronteira.

    Teve algum problema com a polícia brasileira no caminho de volta à BH?

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