Viagem internacional de carro, dia 06: Mendoza – Santiago (Chile)

Depois de uma noite de carnes e vinhos em Mendoza, acordei no dia seguinte e enquanto tomava um banho, fiquei pensando se o melhor seria prosseguir até Santiago ou permanecer na cidade mais um ou dois dias. Mas a lembrança de um quadro na recepção do hotel com uma imagem de “Los Caracoles”, ajudou a decidir: Vamos embora!

Ainda no perímetro urbano de Mendoza são apresentadas as primeiras primeiras placas de sinalização indicando a direção para a o Chile. Ultrapassar uma outra fronteira, agora entre Argentina e Chile, seria mais um marco alcançado e era incrível pensar a cada instante que estava prestes a concluir a travessia de todo o território argentino.

Parei em um posto de combustíveis da YPF para um abastecimento, e, como já havia notado em outros lugares os postos próximos de rodovias na Argentina ficam cheios e nesse havia uma fila de aproximadamente vinte automóveis. Enquanto aguardava minha vez, fui abordado por uma mulher cigana, que começou a falar em ler minha mão. Não acredito nessas coisas e queria recusar, mas em nome da boa convivência e do meu compromisso pessoal de não perder o humor sob nenhuma hipótese, concordei. Então a mulher começou a falar em uma possível “desgraça” a acontecer na estrada e para concluir sua previsão, pediu em troca dinheiro.

Foi quando comecei a me irritar e passei a implorar para ela que parasse com aquilo, mas de nada adiantou. Foi uma oportunidade de viver o que já haviam me falado: Em situações desconfortáveis você sempre irá proferir palavrões em sua língua pátria. E assim foi, manobrei e deixei a fila do posto de gasolina cantando pneus, a mulher berrando que uma desgraça aconteceria.

De volta à autopista, no sentido contrário, havia outro posto da YPF, como não podia me arriscar a ficar sem combustível, tive que fazer dois retornos: Um de volta Mendoza, e outro, após abastecer, retomando o caminho do Chile.

Todo o visual da Ruta Nacional 7 entre Mendoza e os Los Andes é absolutamente fantástico! Levarei as imagens e a sensação de estar ali em minha memória para o resto da vida. Era verão e o sol era escaldante, não havia neve no trecho. O cenário era desértico, com pedras avermelhadas e por vezes acinzentadas, quase sempre com um rio serpenteando as montanhas, assim como a própria rodovia e uma antiga ferrovia fora de uso.

O asfalto é impecável e todo o trecho bem sinalizado, em razão do traçado sinuoso não são muitos os pontos de ultrapassagem. O movimento de automóveis não é constante e circulam alguns caminhões, mas tudo sem provocar grandes filas de lentidão, apesar da pista ser simples e com apenas trechos de faixa dupla para automóveis e caminhões lentos à direita.

Passei por alguns caminhões com placas brasileiras e sempre trocávamos buzinadas empolgadas. É ótimo ver alguém do seu país quando se está tão longe de casa! Apesar do sol forte as rajadas de vento traziam frescor, por isso percorri todo o trecho com os vidros abertos.

Alguns quilômetros de RN 7 até avistar pela primeira vez o belíssimo lago Potrerillos, um espelho de água azul. Essa água que vem do degelo dos Andes e abastece a cidade de Mendoza. Um visual magnífico, tão belo que resolvi estacionar o carro no acostamento e contemplar a paisagem e buscar inspiração para refletir sobre a vida.

Várias músicas foram ouvidas nesse trecho entre Mendoza e Santiago: O álbum “Seventh Son of a Seventh Son” do Iron Maiden, algumas músicas especiais do RUSH como “One Little Victory”, “Marathon”, “Halo Effect” e “How It Is”, e do Megadeth também ouvi muita coisa, umas três vezes “I Thought I Knew It All”, ouvi também Ayreon e Flower Kings.

Mais adiante, já em Uspallata parei em mais um posto da rede YPF para mais um abastecimento e seguir viagem pela Ruta Nacional 7, a partir dali, depois de cruzar homônimo à cidade, mais belas paisagens às margens do Rio Mendoza.

Gigantescos paredões próximos das enormes formações rochosas com o rio correndo entre essas formações, em determinados pontos formando pequenos cânions. Passei a ser tomado por uma euforia por finalmente estar ali com meu carro, presenciando imagens que conhecia por ter assistido diversos vídeos na internet.

Vários quilômetros depois me encontrava em Los Penitentes, onde a altitude com relação ao nível do mar já era bastante elevada, sendo que, e até chegar no Túnel Cristo Redentor de Los Andes, aumentaria ainda mais. Em razão da disso, era perceptível a queda de rendimento do Omega.

Ao iniciar a travessia do túnel e cruzar a fronteira geográfica, a primeira sinalização de boas-vindas ao Chile, quando então a Ruta Nacional 7 da Argentina torna-se Ruta Nacional 60 do Chile. Enorme sensação de vitória em uma manhã de domingo.

Seguindo viagem passei por mais um túnel e logo depois já era possível ver a fila que se formava para a imigração chilena. Os policiais procuravam adiantar o trâmite entregando as fichas de documentação aos viajantes. Na fila até ser atendido no primeiro guichê para verificação de documentação foram aproximadamente três horas de espera, em seguida o carro é verificado pelos federais do país.

Estava levando para uma amiga algumas caixas com vários itens pessoais, como livros, quadros, discos de vídeo game e materiais de escalada. Seu marido havia recebido uma proposta de mudança para Santiago e estes materiais ela estava com certo receio de despachar por via aérea. Para mim foi um grande prazer fazer este favor, além de ser mais um motivo para levar Omega até Santiago.

Mas o policial federal chileno ficou em dúvida e foi logo perguntando o motivo eu estar levando todo aquele material para o país. Tive que explicar toda a situação e na fronteira o “portunhol” não é tão bem compreendido, se propositalmente ou não, nunca vou saber.

Tive que abrir as caixas e retirá-las do porta-malas, enquanto passava por esta inquisição do policial próximo ao porta-malas do Omega, um dos cães entrou no compartimento dos passageiros sob a supervisão de uma policial. O cão farejou tudo, porta luvas e banco traseiro e depois que subiu no porta-malas para farejar tudo por lá, me solicitaram ainda abrir o capô do motor para uma inspeção visual do policial.

O problema da demora da imigração era apenas um: Eu sabia que estava distante apenas poucos quilômetros de distância de Los Caracoles e isso me deixava com uma profunda sensação de urgência.

Finalmente concluído o trâmite de migração, fui até um atendimento cambial para trocar pesos argentinos por chilenos, foi quando achei estranha a proporção numérica entre as duas moedas: Mil pesos chilenos valem muito pouco e saí da fronteira “rico”, com milhares de pesos.

Segui viagem e finalmente chego aos caracóis chilenos (detalhada a experiência aqui), mais um marco alcançado na longa viagem. Parei o Omega em uma das primeiras curvas, sentei ali perto, no chão mesmo, e fiquei contemplando a vista e agradeci à vida por me proporcionar aquele momento.

Depois dos caracóis, continuei a descida da Ruta Nacional 60 às margens do Rio Juncal, estrada e rio cruzando pequenos lugarejos, em um visual que pela vegetação e tipo de construções me faziam lembrar alguns filmes americanos da década de 80.

Haviam muitas bandeiras do país em mastros, ainda mais frequentes que na Argentina. Nas curvas mais fechadas aplicam um asfalto de alta aderência, colorido em vermelho. A viagem pela Ruta Nacional 60 continuou até Los Andes, onde acessei a Autopista Los Libertadores, como diriam os aviadores: “Na proa” de Santiago.

Na Autopista, a velocidade regulamentar era de 130 km/h, e antes que fosse possível me animar com isso fui surpreendido com a polícia chilena, utilizando automóveis Dodge Challenger para patrulhar a via – melhor seguir as regras dos caras – pensei.

Minha amiga, que ainda não havia se mudado para o país, pediu para encontrar com um de seus amigos e deixar suas coisas em Santiago, no bairro Las Condes. Assim, ao chegar à cidade, peguei a Autopista Nororiente e depois a Costanera Norte. Fiquei impressionado com a estrutura viária de Santiago. Parece ser a cidade mais próxima do primeiro mundo na América do Sul.

Como cheguei sem avisar a pessoa que receberia as coisas da minha amiga, não havia como prever o que aconteceria, após um contato por telefone soube da indisponibilidade dele em receber as caixas, assim fui logo procurar hotel no qual pudesse me hospedar por uma noite.

Realmente estava cansado e precisando de uma boa ducha, e como Santiago é uma grande metrópole, me hospedei mais uma vez em um hotel tradicional, desse que existem em qualquer cidade maior. Havia pensado em hostels antes de deixar Belo Horizonte, mas isso só ocorreu mais adiante na jornada.

Depois da ducha acabei pegando no sono, e umas duas horas depois acordei e fui ao restaurante do hotel onde conheci um brasileiro que lá trabalhava, sujeito divertido e falastrão, havia saído do nordeste do Brasil três anos antes e estava feliz com sua família em Santiago.

Fiz minha refeição no lugar e tomei umas cinco cervejas no lugar do vinho, aproveitei o tempo e lia um livro que um amigo havia emprestado para levar: Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. Retornei ao quarto e tratei de dormir para então no dia seguinte resolver o que faria: Permaneceria em Santiago ou iria correndo para Viña Del Mar?

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s