Viagem internacional de carro, dia 05: Rosário – Mendoza

Abri os olhos e me assustei imediatamente ao enxergar a imagem bege do forro do teto do Omega e lembrei: Cara! Estamos no carro e estacionados em uma avenida! Ergui lentamente a cabeça até que pudesse enxergar pelo para brisas as pessoas no ponto de ônibus, eram aproximadamente 7 horas da manhã e o ponto estava lotado, morri de vergonha da minha situação.

Ainda deitado no banco traseiro, vesti meu “uniforme de dirigir”: Camisa de futebol, bermuda e tênis e piso raso com meias. Queria mesmo sair rápido de onde estava, desejando também não ser notado, o que era impossível. Aguardei que um ônibus levasse um pouco das inúmeras testemunhas, e tão logo isso aconteceu sai do carro como se nada de anormal estivesse acontecendo, tomei meu lugar ao volante e continuei a viagem. Estava de jejum mas isso não me preocupou, a fome era de estrada!

Segui viagem pela Autopista 9 e me impressionou as várias barreiras policiais sob praticamente todos os viadutos nos trevos desta rodovia como também o limite regulamentar de velocidade: 130 km/h. Apesar das barreiras policiais não fui parado e segui tranquilo até chegar à Córdoba, onde fiz um novo abastecimento e um lanche. Interessante notar que na Argentina são raros os postos do combustível nas rodovias, ao contrário do que estamos acostumados, assim, quando um aparece geralmente ele está cheio.

Segui viagem sem entrar na cidade de Córdoba, há uma espécie de anel rodoviário que permite contornar a cidade por fora, e também nesse ponto da viagem comecei a sentir novamente leve desapontamento com as paisagens. As planícies pareciam infinitas e as retas pouco desafiadoras para um sujeito que gosta de dirigir, essa rotina meu fazia lembrar das rodovias de Minas Gerais e suas curvas em sequência – que saudade!

Mas então, logo após passar por Córdoba, vieram algumas montanhas no horizonte, estava prestes a chegar a Ruta Provincial 96, depois de deixar a Ruta Nacional 20, até o acesso a Ruta Nacional 34. O visual é magnífico e me marcou absolutamente: Subidas, curvas fechadas, ultrapassagens, e uma nova perspectiva da paisagem à cada novo ângulo alcançado com o avançar da viagem.

O Omega e seu motor 4,1 litros mostrou sua força! Apesar de pouco eficiente em potência máxima como resultado de uma engenharia ultrapassada, em razão da grande capacidade cúbica esbanja torque em rotações baixas, o que ajuda bastante em subidas íngremes. Deixei para trás veículos modernos como VW Vento e Ford Focus. Também nas curvas, um show, possível graças à suspensão independente nas quatro rodas e uma boa distribuição de peso.

No topo avista-se o Observatorio Astronómico de Bosque Alegre, a alegria de estar sendo mais desafiado pelo traçado me trouxe bem-estar, e ao contrário do que estava sentido até chegar em Córdoba, passei a imaginar sobre quantas pessoas já haviam se atirado em tamanha aventura e sob as mesmas condições que eu havia assumido. Passei a ficar orgulhoso da minha coragem e determinação.

Ao iniciar a descida, o primeiro e único acidente de trânsito que presenciei em terreno argentino, um caminhão que se chocou contra um barranco. Os motoristas argentinos contam com boas rodovias e não há radares como no Brasil, também não há tanto movimento e a soma desses fatores parecem contribuir para a baixa ocorrência de acidentes. Não é dado estatístico, é apenas o que percebi como turista.

Também quando pensava na pouca ocorrência de acidentes, passei também a me perguntar se era eu um turista ou apenas alguém em trânsito. A segunda opção parecia mais condizente com a situação, já que na verdade não estava muito interessado em conhecer as diversas cidades em detalhes. A viagem era quase como um jogo onde o objetivo era passar por cada cidade ou lugarejo, como checkpoints.

O quinto dia da viagem se mostrou entre os melhores das paisagens argentinas. A Ruta Nacional 34 cruza o Parque Nacional Quebrada Del Condorito e proporciona um incrível visual. A vegetação se mostrava diferente e com muitas pedras. Os locais de parada vendiam, além do artesanato local, agasalhos mais resistentes ao frio, demostrando que o local apresenta baixas temperaturas, embora não fosse o caso quando passei por ali. Parei rapidamente em um deles para comer um lanche.

Cheguei então à cidade de Mina Clavero, onde fiz um abastecimento em um posto da rede YPF, estatal argentina. Haviam muitos carros e alguns motociclistas brasileiros de São Paulo com os quais conversei. Acharam a coisa toda uma maluquice: Viajar sozinho em um carro do tamanho do Omega e gastando com isso tanto dinheiro com gasolina? Maluquice depende do ponto de vista, pensei. Mas preferi ouvir a crítica como elogio.

Depois de um trecho pela Ruta Provincial 14, no sentido sul, alcancei a cidade de Villa Dolores, ainda na província de Córdoba, nessa cidade pela primeira vez fiquei perdido. Havia uma obra e um desvio mal sinalizado, o Google Maps não funcionava devida à falta de cobertura do plano de dados – sei que muitos vão dizer: Porque não levou GPS? A resposta é simples, e repetida: Sem muito planejamento.

Por muitos períodos na viagem, rodei seguindo apenas as placas pelo caminho e como já tinha na mente quais cidades seriam passagem até a chegada em Mendoza, nem mapa de papel levei. Quando por algum motivo quando sentia estar perdido, utilizava o Google Maps no smartphone.

Mas em Villa Dolores fui circulando meio sem saber para onde estava indo por uns dez minutos, até que cheguei em uma praça grande sob um sol escaldante. Parei e percebi que estava sendo observado pelas poucas pessoas que estavam no lugar. Senti certo receio, causado pela sensação de ser um estranho. A garrafa com água que tinha comigo no carro já estava quente, bebi um gole que não serviu de muita coisa a não ser tomar coragem para perguntar a uma daquelas pessoas a direção para Mendoza.

Um senhor de meia idade mostrou o caminho até a volta para a RN 20, aproveitei para perto dali comprar mais uma garrafa de água para seguir viagem. Com o tempo fui relaxando com a questão de ser observado por ser estranho – na situação contrária também não seria assim? Também passei a ficar mais relaxado com relação à língua, afinal, as pessoas sabiam que eu era estrangeiro, e cooperavam. Durante toda a viagem, não tenho nada a reclamar da receptividade de argentinos ou chilenos.

Depois de muitas horas de volante, percebi pela quilometragem do painel que a viagem naquele dia havia sido pouco produtiva, considerando a distância percorrida, e decretei que deveria ainda no quinto dia chegar à Mendoza. Todas as vezes durante a viagem, ao decretar um destino final para um dia, era algo meio difícil de ser alcançado, então a velocidade aumentava, quem bom estar viajando de Omega!

Passando de carro por tantas cidadezinhas argentinas, muitas delas pareciam com cidades pobres do interior do Brasil, de gente sofrida. Haviam carros canibalizados, gente vendo o tempo passar em lojas à beira de estrada vendendo artesanato ou comida e lanches. Mas algumas situações me chamaram atenção de forma positiva:

As rodovias têm poucos quebra-molas, é realmente raro encontrá-los, mesmo em trechos onde a cidade é cortada por uma rodovia. Há cuidado para que as construções não fiquem tão próximas ao trânsito, em sua maioria há um gramado de uns 5 metros de distância entre a pista e a rua marginal local. Vi muito patriotismo, demonstrado pelas várias casas e estabelecimentos comerciais com mastros com a bandeira azul e branca do país tremulando.

Quilômetros depois de Villa Dolores, mais uma fronteira ultrapassada, desta vez a fronteira entre Córdoba e San Luís, as planícies e retas sem fim voltaram ao programa de viagem e vegetação era quase desértica! Foi assim na Ruta Nacional 146, entre as cidades de Lujan e San Luís: Enormes retas além do alcance da visão, horizonte distorcido pelo dançar do vapor do calor que brotava do terreno seco. O céu azul não oferecia uma nuvem sequer para abrandar a força do calor do sol, estava cansado e novamente pensei seriamente em dar meia volta.

Já na Ruta Nacional 7, as primeiras placas de sinalização indicando a direção e distância até cidade de Mendoza, me animei e ficou claro que não poderia ter feito coisa pior caso resolvesse voltar, já estava tão perto! Acelerei rumo à cidade de Mendoza, certo que ali ficaria um ou dois dias para descansar antes de seguir viagem até o Chile.

Chegando em Mendoza no início da noite, percorre-se quilômetros ao lado de parreiras de produtores de vinhos locais. Passei pelo aeroporto da cidade e comentei em voz alta, triunfante: Estão vindo de avião, seus fracos! Eu venho de Omega! Havia mesmo uma percepção de tão grande desafio vencido, e eu, mais do que qualquer pessoa, deveria mesmo me orgulhar disso: Exausto, mas vitorioso!

A partir disso compreendia melhor a magnitude do feito e passei a me sentir muito bem com isso e nenhuma outra vez desse dia em diante me senti arrependido de ter saído de casa cinco dias antes.

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