Viagem internacional de carro, dia 04: São Borja – Rosário (Argentina)

A manhã em São Borja começou por volta de 09h00, quando cheguei ao café da manhã no hotel, percebi que muitos hóspedes eram argentinos em trânsito, indo ou retornando das praias de Santa Catarina. O Omega estava estacionado nos fundos do hotel, antes de partir à caminho da Argentina, fui até uma agência do banco ali perto para levar comigo algum dinheiro para câmbio na fronteira.

Retornei ao hotel para buscar minhas coisas e deixar o hotel, saí preguiçosamente de São Borja, tentando compreender que a jornada estava longe de ser concretizada, mas que aquilo estava se tornando realmente sério, pois estávamos de saída do Brasil – a ficha estava caindo!

Cheguei à fronteira conjunta de Brasil e Argentina após cruzar o Rio Uruguai, que impressiona pela largura entre as margens, ainda com receio que algo pudesse sair errado, e saiu. A confusão com a língua começou e entendi errado a instrução de um policial argentino e peguei a fila errada, tive que manobrar para chegar na fila correta, chegando ao guichê entreguei meus documentos particulares e também os do Omega, com três minutos tudo estava certo e fui liberado, tudo muito simples.

Deixei o carro no estacionamento e procurei por câmbio oficial de reais por pesos argentinos, retornei ao Omega e logo que voltamos a “caminhar” juntos. Fiquei feliz por ter conseguido passar pelo trâmite da fronteira sem maiores problemas, e além disso havia um sentimento que aquilo seria só um passo entre outros desafios que viriam.

Ruta Nacional 14, Argentina.
Ruta Nacional 14, Argentina.

Um desses desafios, segundo relatos que recolhi na internet, davam conta de constantes casos de corrupção da polícia argentina ao parar carros estrangeiros nesse trecho da Ruta Nacional 14, partindo da cidade de Santo Tomé. As retas na RN 14 são um convite quase irrecusável para desenvolver altas velocidades, mas consegui manter a velocidade regulamentar nos, aproximadamente, 290 km até o entroncamento da RN 14 com a Ruta Nacional 127.

No entroncamento entre as duas rodovias fiz o primeiro abastecimento do Omega com a gasolina argentina, que não possui adição de álcool à composição. O preço do litro comparado ao preço da gasolina brasileira à época era quase o mesmo, porém, considerando que o automóvel consome menos gasolina quando o combustível é puro, acredito que com este combustível economizei uns 20% de dinheiro, e, como foi regra a partir dali, abastecimentos somente com pagamento em dinheiro.

O frentista chamou minha atenção quanto ao uso do celular para fotografar o abastecimento, é proibido o uso dos aparelhos em postos de gasolina no país. Também me senti observado por todos no lugar pois o Omega não foi um carro comum naquele país, e da mesma forma que era estranho ver carros argentinos na região de Santa Catarina, as pessoas desconfiavam da minha presença.

Nos primeiros quilômetros na RN 127, o Omega virou o hodômetro total e completou 150.000 km rodados, cruzamos também a primeira barreira entre províncias argentinas ao deixar para trás Corrientes e entrarmos em Entre Ríos, onde não havia barreira policial. A RN 127 se mostrou a estrada com pior conservação em território argentino com alguns trechos com remendos e alternando entre a pavimentação predominante de concreto com asfalto.

A esta altura da viagem fui tomado pela pressa, sem saber exatamente o motivo. Era o quarto dia de viagem e por mais que já estivesse 3.000 km distante de casa, a sensação é de que ainda estava muito longe do objetivo que era chegar ao Oceano Pacífico. As infindáveis planícies e retas das rodovias tornavam a viagem enfadonha por não haver sensação de progresso, e ao contrário do Brasil não existem diversas cidadezinhas ao longo das rodovias.

Para servir de animação, por mais de quarenta minutos na RN 127 e quase de penetra, entrei em um comboio em alta velocidade, alternando entre 140 e 180 km/h. Éramos um Ford Kuga, um Ford Focus, um Volkswagen Vento (idêntico ao nosso Jetta) e eu, no Chevrolet Omega.

Na RN 127 ficaram para trás as cidades de Los Conquistadores, Federal e Sauce de Luna, entre esta cidade e a seguinte, El Pingo, fui parado em uma barreira policial, a primeira como estrangeiro. Apesar de ter sido tomado pelo receio de alguma coisa errada acontecer, um educado policial solicitou a documentação para verificação e após conferir tudo perguntou se viajava sozinho, quando respondi seu semblante foi tradução daquilo que se tornou habitual, as pessoas acharem estranho.

Ruta Nacional 127
Ruta Nacional 127

Adiante tomei a RN 12, quando já havia rodado pouco mais de 500 km em território argentino, o que representava estar próximo da cidade de Paraná, a maior cidade Argentina até então. Já estava cansado de ver paisagens repetidas e por algumas vezes pensei que a viagem estava se tornando chata.

Parei em um posto de combustíveis para um abastecimento e me alimentar, estacionei o Omega em uma vaga coberta para que pudesse descansar um pouco. Fiz um rápido lanche e tentava compreender o que dizia o repórter policial na TV e fiquei realmente preocupado pois não entendia muita coisa, apesar que para pagar minha consumação na loja de conveniência não houve problema.

Retornei ao carro para seguir viagem para enfrentar um problema: Ao tentar soltar o freio de estacionamento, não consegui. O botão de liberação da alavanca para posição de repouso estava travado, e eu, longe de casa e fora do meu país. Com esse problema por resolver pensei em voz alta: Porque esse problema não aconteceu no Brasil? Que maldição!

Mas era necessário não só resolver o problema, mas também manter o compromisso de não me irritar por nada: Você não vai perder a paciência, cara! Disse, novamente em voz alta, e complementando: Pegue sua caixa de ferramentas no porta-malas e resolva o problema, deve ser simples! E realmente foi, e partir desse dia começou a ficar mais frequente conversar comigo mesmo em voz alta!

Com cuidado, retirei o acabamento de couro da alavanca do freio de estacionamento, e com um alicate de bico soltei a trava da alavanca, puxando-a para fora da engrenagem de trava, liberando-a assim para retornar ao estado de repouso. Fiquei feliz, e remontei o acabamento de couro, afinal o carro não podia ficar com um detalhe de acabamento faltando, guardei as ferramentas e segui viagem, esse problema nunca mais se manifestou.

Ao chegar a Paraná, meus pesos estavam acabando e havia feito uma tentativa de pagar um lanche com meu cartão de débito sem sucesso, isso começou a me preocupar e então perdi preciosos 30 minutos tentando resolver com o banco por telefone, a atendente garantiu que tudo estava certo e que deveria conseguir pagar minhas compras no exterior com o cartão.

Feito isso segui para o acesso ao túnel sub-fluvial, que passa por baixo do leito do Rio Paraná, uma tremenda obra de engenharia, paguei o pedágio para cruzá-lo e acessar a cidade do outro lado da margem, Santa Fé. Além disso foi cruzada mais uma fronteira entre províncias.

Passei em um hipermercado em Santa Fé onde fiz um lanche e saquei mais dinheiro. Já era noite quando resolvi que não queria permanecer em Santa Fé, sem saber exatamente o motivo e na pior decisão da viagem. Resolvi então seguir Ruta Nacional 11 de pista simples, ignorando a autopista, até a cidade de Rosário – assim seria mais desafiador, pensei. Esqueci que seria também mais cansativo e demorado.

Cheguei a Rosário quase no início da madrugada, e comecei desesperadamente procurar hotel para passar a noite. Passei em alguns hotéis e não consegui um quarto, comecei a me irritar com a situação quando pensei: Vou dormir no carro, e na rua! Procurei uma avenida um pouco mais movimentada e estacionei próximo a um ponto de ônibus.

É engraçado, pois lembro bem de olhar para as pessoas e construções ao redor do ponto de ônibus e decretar: Aqui é seguro. O que faz a necessidade de descansar! Nada seria absolutamente seguro para dormir na rua, dentro de um carro raro na Argentina e com uma placa estrangeira. Agarrei-me à frágil teoria de segurança imaginada, vesti uma roupa um pouco mais confortável e no banco traseiro do Omega tratei de dormir.

Antes de pegar no sono, pensava nas pessoas que estavam longe e preocupadas comigo. Então decretei também que, para este tipo de situação, nada seria revelado a ninguém até minha volta de viagem, seriam apenas histórias e memórias para assustar todo mundo.

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