O Mineirão da elite

O futebol era, até uns quinze anos atrás, o esporte do povo. Era a manifestação da sua alegria, um momento de extravasar seus sentimentos, era quando o cabra largava tudo, aproveitava para xingar o juiz, reclamar do time. Ali era o santuário de alegria ou de raiva. Mas essa realidade vem mudando.

Em Minas Gerais, em jogos do Cruzeiro que é meu time de coração, os ingressos custavam quase sempre dez reais na arquibancada de concreto. Não havia conforto, eram poucos setores. O sujeito poderia ir nas cadeiras superiores ou de setor, arquibancada superior ou as chamadas populares, e geral. Não haviam setores dentro de um mesmo setor, ou seja, arquibancada era um setor único, trate de chegar cedo e se acotovelar pelos melhores locais. Cerveja era liberada e acompanhada sempre de um poderoso feijão tropeiro servido em marmitex de alumínio.

Aos poucos, bem devagar, a setorização foi aumentando e o torcedor talvez nem tenha percebido. Passaram a comercializar os ingressos do setor central das arquibancadas com preço diferenciado da área da arquibancada nas partes de trás de cada um dos gols, o que não permite uma visão legal da armação tática dos times, mas dava pro gasto. No lugar do concretão, cadeirinhas, ainda que pouco confortáveis.

A geral ainda existia, mas com o avanço da publicidade e aumento dos canais de TV, era cada vez mais difícil assistir aos jogos dali. Foram diminuindo a capacidade do setor, em alguns jogos, nem comercializavam mais os ingressos para os “geraldinos”.

Imagem: Almanaque do Cruzeiro
Imagem: Almanaque do Cruzeiro

Eis que o Mineirão foi fechado para a reforma visando a Copa do Mundo, e tudo aquilo que era o Mineirão, parece ser coisa do passado. Não se trata apenas de saudosismo, aliás, acho que o crescimento da economia explica em parte os ajustes realizados no estádio.

A setorização ganhou mais força, geral e populares deixaram de existir, e a arquibancada, agora com cadeiras que prometem conforto, ocupam dois anéis, o superior e o inferior, próximo ao gramado, o filé da coisa. Foram ainda criados luxuosos camarotes a quem pode gastar ainda mais dinheiro. É natural que aconteçam melhorias para atender as pessoas que hoje podem pagar mais que antes, mas e o esporte do povo?

Em virtude da criação dos sócios torcedores, os clubes procuram fidelizar torcedores, dessa forma boa parte dos ingressos automaticamente deixam as bilheterias, os programas de fidelização não custam pouco, e o sujeito que poderia comparecer eventualmente, digamos, uma única ver por mês, pagará ainda mais caro, ir muitas vezes como na época do “dez real”, é impossível.

Ao que parece, o sujeito que não pode gastar tanto dinheiro para ver o seu time ao vivo, mas ainda assim gosta do esporte bretão, terá que recorrer aos pacotes de TV fechada, embora estes também não custem pouco, só o pacote do PFC custa R$ 70,00, fora um pacote básico e um combo de serviços, o sujeito vai gastar uma nota preta.

O povão, que tanto colaborou para o futebol, está sendo riscado das estratégias dos clubes, e isso é de certa forma triste. Não vamos mais ver aqueles figuras nas arquibancadas, nas gerais. Tudo isso em nome da melhor organização e financiamento do esporte, tudo bem, mas acho que vai ficar um pouco de saudade do antigo Mineirão.

2 comentários em “O Mineirão da elite

  1. O preço era baixo, tinhamos cerveja, tropeiro, bandeiras e crianças.
    Apesar de alguns conflitos entre torcedores ainda era possível assistir sentando aos jogos.
    Agora temos: mais polícia, menos segurança, mais conflitos e preço alto. Tudo isso por culpa dos dirigentes que só pensam na grana e vendem todos os direitos à TV e patrocinadores sem se preocupar com os torcedores.
    A polícia é incapaz de organizar um jogo no independencia com as duas torcidas. Isso é uma vergonha e só acontece em Minas. Além disso tiraram a cerveja, pois a culparam de ser a responsável pelos conflitos, mas esqueceram de proibir a maconha e cocaina que rola solto sem punição e causando maior insegurança às nossas crianças, que estão perdendo espaço nos jogos.
    É preciso que a “organização” privada e pública (federal, estadual e municipal) façam uma análise e revisão das regras e tirem da CBF (manipulada pelo ex-presidente e poderosos) e da TV Globo as decisões. Que os clubes sejam mais ouvidos e beneficiados para que consigam repassar este benefícios aos torcedores.

    1. Boa, Julio. Mas, acho que nesse contexto de independência da CBF e Rede Globo, os clubes não são vítimas, como entendi quando você comenta, “que os clubes sejam mais ouvidos”. A culpa da situação ter chegado no patamar que está atualmente, é dos clubes.

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