A ditadura da CNH

Você conhece alguém que não possui a Carteira Nacional de Habilitação, CNH, que permite ao cidadão conduzir automóveis pelas ruas do país? Provavelmente sim, e isso muitas vezes causa espanto nas pessoas habilitadas: “Mas, porque você não tem careira?”, é comum interrogarem.

Não é meu caso, tenho minha carteira desde 2005, tirei tardiamente, já com 26 anos. Para um aficcionado por automóveis, todos esperavam que eu fizesse todos os esforços no sentido de obter o documento logo após completar dezoito anos, mas, não tinha meu próprio automóvel, e não esquentei muito a cabeça com isso.

Foi quando 1999 as cobranças se tornaram mais constantes. Estava com vinte anos, e tinha uma namorada. O que fazer? Namorar usando transporte coletivo era uma opção, mas geralmente sofrida. Sair para passeios em finais de semana, durante a noite, deixar a moça em casa e então retornar até a casa dos pais era um processo lento, e também perigoso. Não raro chegava em casa perto do amanhecer.

Comecei a frequentar autoescola pela primeira vez durante esse período do namoro. Como citado anteriormente, automóvel sempre foi uma paixão, estudar sobre direção defensiva e noções básicas de mecânica causava o mesmo entusiasmo que uma tarde dominical assistindo Domigão do Faustão. Já sabia dirigir há anos, participava das manutenções do Chevette, só precisava de um documento. Mas, o namoro terminou e a vontade da CNH também, abandonei o curso.

Só em 2005 o assunto voltou à pauta. Comprei um Corsa e estava rodando com ele sem possuir carteira, um erro, mas era o que estava fazendo. A verdade, é que foi nessa época que mudei de emprego, passando a trabalhar em uma região distante da cidade, com pouca cobertura de transporte coletivo. A CNH só chegou no final do ano, depois de o Corsa já ter sido furtado, quando eu passei realmente a precisar do documento, pois guiar o Chevette sem documentação era fora de questão.

Tudo isso demonstra que muita gente, inclusive eu, procura ter carteira de motorista pela necessidade do cotidiano, e não por realmente gostar de dirigir o automóvel, ponto no qual eu sou excessão, mas pra isso eu nem precisaria ter o documento, o qual gosto de pensar como um passe livre dos policiais. Esse papel do automóvel para suprir necessidades básicas de locomoção, talvez explique a grande quantidade de motoristas ruins nas ruas, somado a isso o péssimo processo de formação e avaliação de motoristas, e a falta de inteligência dos organismos de trânsito nas grandes cidades, a tendência é piorar.

Então, quando alguém responder que não tem carteira de motorista, não seja chato questionando o motivo disso, como se possuir o documento fosse obrigatório, tal qual possuir um documento de identidade. Melhor pessoas conscientes em não serem preparadas para isso, ou julgarem ser possível utilizar o transporte coletivo, que continuar inundando as ruas com gente que usa o automóvel apenas pela ditadura da CNH.

4 comentários em “A ditadura da CNH

  1. Serial legal se as pessoas pudessem “devolver” sua CNH assumindo a falta de necessidade da mesma ou a incompetência na direção. Que fosse devolvido metade do investimento, acho que algumas pessoas optariam por isso.

    []’s

    1. Também acho, se existe uma avaliação teórica e prática, frequentar os cursos deveria ser opcional. Principalmente pela superficialidade dos cursos, se fosse algo realmente abrangente, em pista apropriada, onde fossem abordados situações de emergência no trânsito, seria a favor da obrigatoriedade da presença dos candidatos.

  2. Há muito o que considerar com relação a este assunto. Não podemos esquecer que auto-escola no Brasil não se destina a ensinar dirigir – é só um amontoado de “dicas” para passar no exame do Detran, quem, por exemplo, recebeu noções de direção em condições de pista molhada na auto-escola? Noções de retomar o controle do carro em derrapagens e muitas outras coisas que todo motorista deveria saber e pouquíssimos sabem.

    Por outro lado, abolir a licença para dirigir acaba sendo pior e só provocaria um aumento no número de acidentes e de vítimas. Penso que o caminho ideal seria o de reforçar o rigor do exame prático e das aulas, incluindo aulas em simuladores onde se poderia simular condição de direção em alta velocidade, em pista molhada e escorregadia e ainda em condição de baixa iluminação e outras situações para as quais os motoristas precisam estar preparados.

    Lamento apenas que devido à condição de “seriedade” com que as coisas são tratadas por aqui qualquer iniciativa nesse sentido só teria como efeito o aumento no “custo” para se obter a CNH com o correspondente aumento na corrupção.

    1. Antônio, satisfação ler um comentário seu aqui no blog.

      Concordo com seu ponto de vista, embora a questão de a autoescola não ensinar a dirigir, e na verdade ensina a ser aprovado no exame de rua, é uma distorção provocada aos poucos, pois esse processo pouco evoluiu se comparado aos próprio automóveis. Ninguém sabe a função de airbag, abs, ebd, bas e etc… e itens de segurança acabam sendo meros itens de status. De nada adianta o sujeito ter airbags se não utilizar cinto de segurança, e já vi muita gente pensando que a presença de um, elimina a necessidade de outro.

      Aproveitando seu comentário, deixo dois links interessantes para a leitura de todos interessados no assunto:

      Porque eles dirigem direito do MaharPress.

      Trânsito não é apenas velocidade máxima, que escrevi há tempos aqui no Hagi Thoughts.

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