Substituição de Produtos na Chevrolet

Substituir um produto antigo por um novo não deve ser tarefa das mais fáceis, principalmente quando o fabricante resolve fazer o que considero óbvio em substituição de produtos. Vamos fazer um exercício de memória com relação aos veículos da Chevrolet que chegaram ao país na década de noventa e fazer a mesma comparação com a década passada.

Não vou falar nada sobre modelos que não considero como veículos: Meriva, Zafira, S10 e qualquer outra coisa que seja mais alta que minha estatura ou seja montado sobre chassis. Hehehe.

Os anos 90:

No início da década de noventa, a Chevrolet sinalizou uma estratégia que poucos acreditaram à época, um lançamento a cada seis meses para renovação total da linha de produtos. Quem consegue imaginar algo assim hoje?

Talvez almejando um grande impacto, começaram pelo maior ícone da filial brasileira, o Opala. Já demonstrando o cansaço de suas linhas básicas concebidas ainda na década de sessenta, e emprestadas do seu primo europeu, o Opel Rekord, o Opala era o que tínhamos de mais luxuoso e imponente. Para substituí-lo, além de lançada uma versão especial para colecionados que incluía alguns mimos, foi escolhido um substituto à altura: O Opel Omega.

Superior ao Opala em qualquer tipo de comparação, só perdendo talvez em carisma, o Omega chegou ao mercado muito à frente de todo e qualquer carro fabricado em terras brasileiras. Espaço interno, muito conforto, itens de série e opção de alto desempenho na versão topo de linha que contava com um motor 3.0 litros e também “seis canecos” e injeção eletrônica multiponto. Alguns dos defeitos de seu antecessor foram totalmente resolvidos: Suspensão independente nas quatro rodas, moderna transmissão incluindo diferencial que com uso de homocinéticas para movimentar as rodas, aerodinâmica invejável com vidros rentes à carroceria.

Em seguida foi a vez de o Chevette deixar as linhas de produção, sou suspeito para falar sobre esse carro, já que adoro o modelo. Acontece que a eminente modernização do mercado deixaria as coisas difíceis para o modelo. Nascido no Brasil em 1973, seis meses antes do lançamento europeu pela Opel, o Chevette estava alheio à tudo que se espera de um carro de linha de entrada: Motor longitudinal, alimentado por carburador e tração traseira são os melhores exemplos.

A substituição veio com o Corsa, também de origem Opel. Carro compacto, também estava à frente de todos no mercado. Um desenho limpo e arrojado, linhas arredondas e faróis em forma de gota que abrigavam também as luzes de direção. Fiat Uno e Volkswagen Gol pareciam saídos da idade média após a chegada do pequeno Chevrolet. Motores com injeção eletrônica, um bom pacote de itens de série e também de opcionais fizeram do Corsa um instantâneo sucesso. A GMB chegou a fazer propagandas na televisão pedindo aos clientes que não pagassem ágio para comprar o modelo em agências, a procura foi muito superior ao que poderiam produzir. Como um hatchback, o Corsa deixou uma lacuna na linha com os clientes que desejassem um sedan como o Chevette ou pickup como o Chevy 500, então não demorou muito até que fossem apresentadas as versão sedan e pickup do Corsa.

O Kadett, veículo que chegou em 89 com bastante sucesso, começou a despedir do nosso mercado em 1995 com a chegada da nossa primeira versão do Astra, que até o lançamento do novo modelo em 98 era importado da Bélgica. Linhas fluídas, seguindo um pouco o estilo do carro que veio substituir, possuía ótimo acabamento interno, próximo do Vectra e com alguns outros componentes parecidos com o Corsa. Kadett e Astra conviveram no mercado até o lançamento nacional em 1998. O Astra teve também o diferencial de oferecer carroceria sedan aos que precisava de maior porta malas. Um sucesso desde o lançamento, alcançando o ápice com a remodelação de 2003, popularmente chamada de locomotiva.

Depois foi a vez do Monza, um modelo que a Chevrolet introduziu no Brasil em 1982 causando um enorme impacto pela novidade que apresentou, um carro que simbolizava status como faz o Civic hoje, apesar do Monza ter sido um carro muito mais superlativo com relação à concorrência em sua época. Motores 1.8 e 2.0 sempre foram sinônimos de robustez mecânica e desempenho. Um modelo tão representativo que não saiu de linha imediatamente após a chegada de seu sucessor.

O Vectra chegou em um primeiro momento convivendo com o veículo que veio substituir. Ao passar do tempo a Chevrolet empobrecia o Monza em itens de série e versões e lentamente foi canibalizando o modelo em favor do substituto Vectra. A saída definitiva do Monza aconteceria com a introdução no mercado do Vectra remodelado, idêntico ao modelo Opel. Um carro de linhas inesquecíveis, sobretudo com o desenho do capô que se junta aos retrovisores, algo sensacional de se ver até hoje. Me lembro bem de imagens “teasers” da Chevrolet nas revistas antes de lançar o modelo. O Vectra foi o sonho de consumo de muita gente, assim como foi o Monza.

O início do fim:

O Vectra chegou prejudicar vendas do Omega, que já em 1996 passava por mudanças na Europa, que não foram trazidas para o Brasil pela GMB. Lá, o Omega recebia mudanças no visual e motores de seis cilindros mais modernos, com cilindros dispostos em V e moderno sistema de injeção eletrônica. Para o Brasil, resolveu a Chevrolet modernizar alguns componentes mecânicos e “injetar” o antigo motor 4.100 que equipara o Opala.

Nada contra, tenho um Omega CD com o motor, porém foi uma escolha meramente passional, não se justifica um motor 4.1 litros substituir um 3.0 litros e apresentar números de desempenho muito similares e ainda consumir mais combustível. Provavelmente a aposta foi na mágica do número 4.1 na cabeça das pessoas, além do custo mais baixo, é claro.

Substituir produtos por outros piores passaria a partir daqui a ser uma prática de rotina na General Motors brasileira.

Os anos 2000:

O primeiro mico da década foi a chegada do Celta. O carro que na verdade é uma mudança de estilo sobre o Corsa original que causou tanto furor entre os consumidores, veio acompanhado de uma chateação enorme por parte do marketing da Chevrolet. Uma fábrica nova e um projeto, segundo eles, brasileiro, entitulado ainda na fase de segredo automotivo como Arara Azul. Foi uma grande decepção perceber que basicamente se tratava de um face lift do nosso querido Corsa.

Dois anos depois uma grata supresa: A chegada do Corsa similar ao Europeu. O carro apresenta, até hoje, linhas agradáveis e limpas como manda a cartilha alemã, mas a estratégia de motorização acabou por prejudicar por muitos anos as vendas do modelo. Enquanto os italianos da FIAT e os alemães da VW dispunham de modelos de entrada do 1.0 ao 1.6, a Chevrolet permaneceu até 2008 com um enorme degrau entre o anêmico 1.0 e o beberrão 1.8. Quando chegou a versão 1.4 as vendas chegaram a melhorar, porém muitos anos sem renovações de estilo, tão importantes no mercado brasileiro, fizeram os consumidores optarem por outros modelos, mesmo que piores.

Já corrompido pela invasão japonesa, leia-se Toyota Corolla e Honda Civic, a Chevrolet resolveu descontinuar o Vectra para relançar um carro qualquer em seguida, o qual batizou de Vectra. Assim como aconteceu com o Opala, a Chevrolet lançou uma versão especial do derradeiro Vectra, mas a comoção do velho Opalão passou longe dessa vez.

O carro que a Chevrolet lançou por aqui e batizou com o nome de Vectra é basicamente um Astra esticado sobre a plataforma do Zafira. Perdeu o genialidade do desenho anterior e a também a suspensão independente, passou a ser um carro comum tanto aos olhos quanto em comportamento, continuou em desvantagem quando comparado aos concorrentes nipônicos e hoje é carro de frotista, a versão topo de linha batizada de Elite também só possui o status de emblema, bem como o nome Vectra.

A Chevrolet ainda faria feio novamente, ao apresentar a versão européia do Astra com o nome de Vectra GT / GT-X. O modelo anterior do Astra, ao invés de ser substituído por este carro e mantido seu nome original, perdeu a versão sedan, um claro sinal que o Vectra na verdade é um Astra, e começou a perder itens de série e versões, a canibalização o levou ao destino natural: Carro de frotista.

Mais recentemente e com a missão de substituir o Corsa, a Chevrolet lançou o Agile, um veículo supostamente totalmente desenvolvido no Brasil. A mentira ocorre aqui como no lançamento do Celta, pois assim como o modelo de entrada, a plataforma é a mesma do Corsa de 94. Com relação ao Corsa de 2002 o Agile é pior em aparência e espaço interno e também, provavelmente, pior em comportamento dinâmico. Nunca dirigi o modelo. Especialmente com relação ao desenho da carroceria, me parece bizarra a proporção de tamanho da grade dianteira e faróis com o resto do carro. Internamente, os problemas de espaço para os ocupantes da frente são os mesmos do Corsa original do qual se origina, as caixa de roda invadem muito o habitáculo.

A Chevrolet não é a única fabricante a se comportar dessa maneira ridícula atualmente. Existem exemplos diversos nas mais variadas linhas, inclusive em fabricantes de pouco tempo no mercado brasileiro, aprenderam rapidamente a lição. Gosto de abordar o fabricante da gravata dourada pois sou um entusiasta da marca que representava o que havia de melhor quando começou a minha paixão pelos automóveis. Nem vou mencionar a importância histórica da marca no mundo.

Não vejo quais foram os ganhos da marca com esse posicionamento de mercado. Em dez anos, a Chevrolet não está mais na cabeça das pessoas como sinônimo de acabamento esmerado e confiabilidade mecânica. Por mais que o mercado tenha se modificado de maneira intensa nos últimos dez anos, a General Motors poderia ter se posicional de maneira diferente e provavelmente teria perdido menos mercado, ou no mínimo a sua marca teria se degradado menos. Os que vemos entre os que ainda gostam da marca são saudosistas ou entusiastas de uma época, que procuram no mercado de usados veículos dessa época de ouro da Chevrolet.

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